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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Peixes grandes e peixes pequenos, por Ed René Kivitz


Na esteira do pensamento paralelo de Dostoiévski, que afirma que, se Deus não existe, tudo é permitido, podemos dizer também que a pluralidade de deuses conspira contra a unidade do ser. A ausência de Deus tira do universo e da humanidade seu fundamento moral. Caso tudo quanto exista seja apenas e tão somente a matéria, a substância originária e permanente de toda a realidade, podemos viver como os peixes grandes que devoram os peixes pequenos. Quem deseja tomar a natureza como padrão para a organização social não tem razões para dar de comer a quem tem fome. O popular já expressou sua sabedoria egoísta: quanto menos somos, melhor passamos. Deixem morrer os pobres, que desapareçam as populações da periferia do mundo, assim teremos mais água, mais petróleo, mais condições de sustentabilidade para o mundo, diminuído o número de seu maior predador, a saber, o bicho homem.

Apenas a nocão de Deus como ser moral oferece à humanidade o fundamento da solidariedade indiscriminada. Essa é uma das grandezas do relato bíblico da criação: em Adão, todos os seres humanos são um, pois sobre todos repousa a dignidade divina. Jesus ensinou que assim como todas as moedas são identificadas pela imagem de César, também todos os seres humanos são identificados pela imago Dei.

O fundamento ético do universo e da humanidade repousa no amor, expressão do ser divino que a tudo dá origem. Isso implica necessariamente a compreensão de que a correlação que liga o homem a seu semelhante se realiza na compreensão de uma correlação superior, a que liga o homem a Deus e Deus ao homem, cuja síntese se revela no Cristo, Deus feito homem, único mediador entre Deus e o homens.

Essas são algumas razões porque, assim como a negação de Deus, a pluralidade de deuses inviabiliza a unidade do ser. Sendo verdadeiro que a relação do homem com Deus se manifesta na relação do homem com seu próximo, é imprescindível a pergunta a respeito do caráter desse Deus, que normatiza a relação entre os homens. Muitos deuses, muitas éticas. Muitas éticas equivale a éticas em conflito em busca de hegemonia. Como os deuses não brigam entre si, brigam seus representantes (ou se preferir, os deuses brigam entre si através de seus pretensos representantes). O monoteísmo cristão, que afirma a unidade de três pessoas numa única divindade, diz que Deus é amor, a comunhão harmônica e perfeita do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Qualquer Deus vestido com roupas diversas do amor é um ídolo, um falso Deus, um demônio. A dedução óbvia é que muitos deuses são artifícios para o surgimento de um único e outro deus que pretende rivalizar com o Deus vivo e verdadeiro. Esse outro deus atende pelo nome de ego humano, que, no caminho inverso do amor, mergulha para dentro de si na pretensão estúpida de afirmar a si mesmo como fundamento do universo e centro do mundo. A idolatria e a descrença, isto é, a afirmação de muitos deuses e a afirmação de Deus nenhum, são duas faces de uma mesma moeda: a absolutização do ego humano.

Uma vez que somente na relação com seu semelhante – com quem é um – o ser humano se realiza, e que somente Deus oferece o fundamento para a unidade da humanidade, toda negação do amor, que equivale ao afastamento do outro, equivale também à desintegração do ser. Em termos concretos, Deus nenhum e muitos deuses são uma e a mesma coisa.

Ed René Kivitz é pastor e teólogo

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Aprendendo a desaprender


Como estou escrevendo um livro sobre cultura brasileira, volto ao assunto cultura. Difícil abandoná-lo neste momento em que o evangelho no Brasil requer mudanças radicais para continuar crescendo. Sinto uma espécie de estagnação no ar. Precisamos andar para frente.
 
Muitos dizem que necessitamos de mais teologia. Concordo. Mais “teo” sempre faz bem: teodiálogos, teoteorias, teosoluções. O que não precisamos é de teopessoas posando de Deus e dizendo que este ou aquele movimento pertence ou não a Deus. Precisamos aprender a nos consertar sem nos jogar fora. “Cobeligerância” é o que falta a muitos grupos cristãos: lutarmos juntos pelas mesmas causas, ainda que sendo diferentes, e tornar o Brasil melhor a partir da unidade. Infelizmente muitos querem que uma espécie de peneira divina retire do meio dos “puros” os que se deixaram corromper, para que o evangelho continue salgando. 
 
A pressuposição de que salgamos pela pureza doutrinária é falsa. Salgamos porque fomos perdoados, porque ele salga. Não estou tentando justificar pecados ou teorias anticristo com isto. Porém, creio que ele é. Ele se encarrega de nos encher de graça e trabalha apesar de nós. É nisto que encontro minha paz e minha paixão pela unidade funcional dos cristãos na tarefa de transformação do país. 
 
Dos teóricos que li, o que mais me ajuda neste momento é Lingenfelter. A pressuposição missiológica anterior a ele era de que a cultura humana é um veículo neutro. Em seu livro Transforming Culture — a challenge for christian mission, Lingenfelter propõe que as culturas são intrinsecamente ímpias. Ninguém pode servir ao reino se não se tornar um emigrante, sem caminhar para fora de sua identidade e em direção à cultura do reino. 
 
Trabalhei a partir da pressuposição de Kraft da neutralidade de culturas indígenas extremamente cruéis. A realidade ao meu redor me feria, mas minha missiologia me instruía a me conformar. Fomos despertados no ano 2000 pelos próprios índios, quando eles mesmos gritaram: “Não queremos mais ser assim, queremos mudar”. A partir de então os males da cultura, bem como as pessoas que eram presas por eles, ficaram evidentes pra nós. O ser humano é sempre o mesmo em qualquer cultura que seja: pecador, humano e divino ao mesmo tempo. É bonito, pois carrega em si a semente do divino, e feio, porque a corrompeu. As culturas são lindas e horríveis — nunca neutras. Não podemos engaiolar a imago Dei na “prisão da desobediência”, como Ligenfelter chama a cultura.
 
No que diz respeito ao Brasil de hoje, há um caminho claro para a igreja. Um caminho difícil, de debates e busca, mas um caminho possível. É o caminho proposto por Lingenfelter, no qual aprendemos a desaprender. Desaprendemos o brasileirismo escravizante, o “malazartismo”, o “macunaimismo”, o pessimismo de Drummond, a promiscuidade de Vinícius (o amor não é eterno enquanto dura, é eterno porque escolhemos que ele seja), desaprendemos a ser família à moda de Nelson Rodrigues, ou a ser corruptos. 
 
Aprendemos a ser brasileiros sem ser brasileiros. Como uma lagarta que sai do casulo, saímos da casca velha e bolorenta para nos tornarmos quem devemos ser: brasileiros do reino, para os quais a brasilidade não é a principal identidade e referência, mas a Palavra de Deus. A brasilidade é um dom que levaremos ao trono, devidamente domesticado pelos valores daquele que nos amou primeiro. A igreja morta fala a mesma língua do mundo a seu redor. Temos que falar a língua do reino. Estou feliz enquanto me “desbrasileiro”. Feliz “desbrasileiramento” para você também. 

Artigo publicado na edição atual da revista Ultimato (nº 334).
 

______________
Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora deChamado Radical.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sociedade espera voz das Igrejas


A primeira foi a decisão do ministro Cesar Peluso no julgamento da lei da ficha limpa, mesmo votando duas vezes para que Jader Barbalho, que responde a processos na Justiça, volte ao Senado. E uma sessão exclusiva para empossar a ministra Rosa Weber, sem que ela tivesse votado, sob o risco de garantir a moralidade do ato.
A desfaçatez do ministro exigiu que a posse do senador ficha suja fosse imediata, após o recesso parlamentar, obrigando a uma reconvocação do Senado, além de onerar a nação com direitos e recebimentos do ano em que não trabalhou.
A despeito da lei, que deveria cumprir e fazer cumprir, além de mostrar desrespeito pela cidadania, já que esta demonstrou seguidas vezes desejar a moralização do poder público.  A interpretação popular é que, apesar da população querer se livrar dos bandidos no poder, o Poder Judiciário deseja outra coisa.
A outra decisão, em forma de liminar, exarada pelo ministro Marco Aurélio Mello, o único nomeado pelo único presidente da República a sofrer impeachment no Brasil e na história moderna, em nome do único poder da República sem legitimidade popular – e portanto incólume à vontade dos cidadãos – impedindo que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão criado para fiscalizá-la, investigue seus membros.
Isso levou o ministro Ricardo Lewandowski a entrar para a lista dos suspeitos ao negar a investigação de juízes, impedindo que o nome de 216.800 magistrados fossem submetidos ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), do Ministério da Justiça. Sem transparência.
Como sabe a Justiça, a plena liberdade de acesso dos réus – alguns desembargadores – às provas, possibilitará a destruição de provas e a fraude, intocáveis pela blindagem à Corregedoria Nacional da Justiça, criada para tal.
Mais complicado que saber da atitude de juízes que, corporativamente, asseguram a impunidade dos colegas em detrimento da sociedade brasileira, é saber que são que mais e melhor sabem dos desvios de conduta, de que só serão julgados por colegas e, pior, que a sentença máxima que receberão é a de serem aposentados com todos os recebimentos intocados.
Na verdade, uma premiação para funcionários públicos corruptos, frente à qual a possibilidade de condenação não chega a ser um risco.
Por trás de todo o processo de moralização da Justiça, especialmente dos juízes, está a atuação da ministra Eliana Calmon, corregedora Geral da Justiça, que inevitavelmente entrou em conflito com o presidente do STF e CNJ, especialmente porque ela referiu-se em público a “bandidos que se escondem atrás das togas”, vista como uma afronta ao Judiciário e não como o que é, uma denúncia do comportamento de juízes, desembargadores e ministros corruptos, isto sim uma afronta à sociedade.
Ocorre que a ministra, por dizer a verdade, alcançou o apoio da sociedade e do Poder Legislativo e o ódio dos colegas corruptos, obrigando às ações vergonhosas, recursos vis utilizados pelo presidente, e recurso comum aos que “precisam” se afirmar, diante da afronta.
O fato de isso ter ocorrido na semana de lançamento do livro “A Privataria Tucana” também é sintomático. O escândalo tem proporções geométricas, alcança dos mandatos da presidência, governadores, prefeitos e outros funcionários. Sem falar na cobertura da GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão), que se confirma no silêncio sobre a obra.
Se foi comprada aos milhares para ser destruída, só mudou porque a editora vendeu mais, aumentou a procura e se tornou opção de presente de Natal. Além das versões disponibilizadas distribuídas na internet.
Aqui entra o papel das igrejas, provocando o debate da convivência humana, especialmente no que diz respeito à convivência dos interesses diversos, determinando leituras com proximidades em algumas partes e divergências brutais.
A contribuição das igrejas vem do fato de também serem elas comunidades humanas, marcadas pela busca do Sagrado, com um mandato e hermenêuticas as mais diversas, que vão desde o sentido da salvação que anunciam, da qual nascem e para a qual existem, até a clareza de que não detêm um discurso absoluto – aprendido a duras penas por algumas, e não aprendidas por outras – causando dor e sofrimento a si e à sociedade.
As igrejas, desde a Idade Média e a modernidade, têm séculos de aprendizagem da convivência dos semelhantes e dos diferentes, a partir do evangelho que vê os seres humanos em igualdade, e a elaboração do conceito de graça, indispensável no cristianismo.
Esse tema reflete a dificuldade de transigir entre a afirmação de fé e a elaboração da prática, já que a prática mostra se o conceito de graça é apenas formal, sem se comprometer com a humanidade plena, noção a que Dietrich Bonhoeffer chamou de graça barata, em contraposição à graça cara, que vai além dos discursos, busca relações igualitárias, sem negar a todos o que afirma a si (Res-publica).
Mas essa situação obriga as igrejas a reverem o seu estatuto ontológico básico, a partir de suas origens europeias e portadoras da mesma discriminação trazidas por suas culturas à sociedade brasileira. O problema é que a reflexão das igrejas deve avançar mais, já que a sociedade avançou décadas em uns poucos anos, e com controles religiosos e ideológicos fragilizados.
Os membros das comunidades são apanhados rejeitando propostas como cidadania, direitos humanos, respeito ao diferente, solidariedade com os fracos, fazendo-os descobrir, surpresos, que aqueles eram os valores que deveriam anunciar.
Ao se descobrirem identificadas com o mesmo sistema de privilégio que defendem – conscientemente ou não, interna e externamente, incluindo ou excluindo pessoas – e, ao perceberem ser parte do mesmo sistema de privilégios, devem pedir perdão, confessar o pecado e viver de forma a sinalizar um novo caminho para a sociedade, e sendo o melhor exemplo prático da mensagem que anunciam.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Atravessando o sofrimento


Sofrimento é o intervalo possível e inevitável entre a aniquilação merecida e a redenção graciosa.

Tudo o que existe, existe em Deus (At 17.28), quando rompemos com Deus perdemos o local da existência.

Nós deveríamos ter deixado de existir. Deus, porém, não o permitiu, manteve-nos.

Para isso arcou com o custo que a justiça impunha: esvaziou-se no Deus Filho. E foi o primeiro movimento da história da redenção, antes da criação de qualquer criatura. (1Pe 1.18-20)

O esvaziamento é a morte de um Deus: não perde a sua natureza, mas abre mão de suas prerrogativas divinas. (Fil 2.5-8)

A cruz, na história humana, é a manifestação, possível, desse esvaziamento que, satisfazendo o princípio da justiça, permitiu que a Trindade atuasse por graça.

O cumprimento do principio de justiça não poderia ser relativizado, sob pena de perda de credibilidade por parte de Deus. (Ez 18.20)

Todo mau uso da liberdade impõe uma consequência. Para que a criação não desaparecesse o Deus Filho se esvaziou.

Quando, ao romper com Deus, não fomos aniquilados, nos tornamos malvados, porque ao dizer não a Deus, dissemos não a tudo o que Deus disse de nós: que seríamos sua imagem e semelhança. O mal que, antes, só podia ser pensado como tese, agora tinha manifestação histórica.

Se a maldade, porém, se tornasse o tom determinante de nossa história, nossa sobrevivência estaria ameaçada da mesma forma, há um limite para a expansão do mal (Gn 6.5-7; 15.16).

Deus, então, por graça, empresta as suas qualidades a nós, o que garante sobrevida com qualidade mínima, para que possamos sobreviver na nova história, enquanto Deus faz o que tem de ser feito para salvar a nossa história e a nós, nela. (At 14.17)

E nos tornamos paradoxos (Rm 7), carregamos o bem e o mal em nós. E o paradoxo é estado de sofrimento.

Os opostos deveriam se aniquilar, mas, a graça divina não o permite.

O esvaziamento do Deus Filho, num primeiro momento, pela deflagração da graça, permitiu o desaceleramento do caos, estabelecendo o paradoxo em toda a criação. E o paradoxo é estado de sofrimento.

Deus, aliás, criou um mundo pronto para o paradoxo, onde convivem o bem e o mal, o dia e a noite, a vida e a morte. Um mundo cuja estabilidade está, portanto, na ação graciosa da Trindade. (Hb 1.3)

Deus criou um mundo temporário para o intervalo do sofrimento, que é, por definição, temporário.

Um mundo temporário, porque o mundo definitivo só tem bem, vida, luz e bem-aventurança. (Ap 21.1; 22.1-5)

Deus, de várias formas falou pelos pais e pelos profetas e, finalmente, pelo Filho, ensinando-nos a conviver nesse e com esse intervalo, de modo a torná-lo menos insuportável. A chave é o amor como moto de tudo e para todos os atos.

A graça, com que Deus socorre a todas as criaturas, desacelera a volta para o caos, para onde tudo teria de ir imediatamente após a ruptura humana. O aniquilamento dá lugar ao sofrimento, resultado da ação restauradora dessa graça, que estabelece o paradoxo pela infusão de vida num ambiente que deveria ser só morte, se a morte pudesse ser, e que, também, torna possível passar por esse intervalo: o sofrimento.

O esvaziamento do Deus Filho, que, num primeiro momento, permitiu o desaceleramento do caos, tornou o caos uma impossibilidade.

Na ressurreição, o Filho do Homem teve comprovada a eficácia do esvaziamento do Deus Filho. A ressurreição é a comprovação da vitória sobre o aniquilamento e o caos. (1 Co 15.54,55)

Na ascensão o Filho de Deus retomou (o que nunca perdera na essência) sua condição de Deus Filho. (Jo 17.4,5)

Tudo estava consumado e o fim da história é a Vida!

É nessa certeza que atravessamos o intervalo, que é estado inevitável de sofrimento; inevitável, mas, administrável, e que pode ter a intensidade diminuída pelo amor. Portanto, amar é nosso desafio e missão. ©ariovaldoramos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Esperando pra ver!

Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda. Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água. Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse. E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo. E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são? O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim. Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda (João 5:2-8).
O homem que há 38 anos se encontrava enfermo e estava próximo ao tanque de Betesda era paralítico, não era cego. Apesar de esperar ajuda para andar, a demora mesmo foi esperando pra ver. Explico. Ele percebia que de tempo em tempo, um anjo agitava as águas do tanque e aquele que ali descia era curado de qualquer mal. Ora, o apóstolo Paulo escreve aos romanos dizendo que aquilo que vemos não pode ser esperança. O autor da carta aos hebreus afirma que a fé é o firme fundamento do que se espera, a prova das coisas que não se vêem. A maior esperança do paralítico, portanto, não seria o milagre de andar, pois tinha certeza que descendo ao tanque andaria. O maior milagre seria ver.

Ver o quê? Alguém que tivesse misericórdia dele. Alguém que, por íntima compaixão, não passasse na sua frente, mas levasse-o até o tanque dando-lhe a oportunidade de seguir em frente, mostrando-lhe companheirismo e amizade. Durante 38 anos ele não viu isso. Ele percebeu que as pessoas se preocupavam cada uma com seus problemas. Que no coração daquela multidão ao seu redor não havia lugar para compartilhar, para amar. Foram 38 anos percebendo que estava só no meio da multidão, que não tinha ninguém que o amasse verdadeiramente. Mesmo assim, ele continuou esperando pra ver.

Ele não foi o primeiro na lista, nem o último. O jovem Ezequiel conta que esteve durante cinco anos nas margens do rio Quebar, junto aos cativos de Jerusalém. Por cinco anos a dor, o sofrimento, a escravidão, a miséria, o desencanto, o desprezo, a vergonha, o silêncio do céu. Mas ele esperou pra ver e viu. No primeiro capítulo do livro que leva seu nome a Bíblia registra: “O céu se abriu e eu tive uma visão de Deus”.

O apóstolo João esteve preso na ilha chamada Patmos por causa da pregação (anúncio e vivência) do evangelho de Cristo. E qual maior obstáculo para quem está preso numa ilha senão o mar que o rodeia? Mas João esperou pra ver a glória de Deus e viu. Viu um novo céu, uma nova terra. E viu que o mar não existe mais. Viu que a prisão não é o fim (Apocalipse 21).

Jesus disse ao paralítico: “Toma tua cama e anda”, mostrando-lhe que não estava só; mostrando-nos que Deus se importa conosco. O homem esperou pra ver, viu e andou.
O homem no tanque de Betesda (João 5:2), Ezequiel no rio Quebar (Ezequiel 1:1), João na ilha de Patmos (Apocalipse 21), Zaqueu de cima da árvore (Lucas 19:4), Maria na porta do sepulcro (João 20:1-11), os discípulos no dia de Pentecoste (Atos 2), a Igreja que orava enquanto Pedro estava na prisão (Atos 12:5), Estevão – mesmo sendo apedrejado (Atos 7:55). A Bíblia está repleta de histórias de pessoas que esperaram pra ver e viram.

O rei Davi esperou com paciência no Senhor. O povo de Israel esperou pelo Senhor. Ele veio, habitou entre nós e vimos a Sua glória. O mundo o viu subir, mas ele vai voltar. Ele aparecerá nas nuvens e todo o olho verá. Essa é a nossa maior esperança. Nós esperamos pra ver. Aleluia.

Veja outros estudos de RM clicando aqui

{Estudo Bíblico} Quando a cultura vira evangelho

O relacionamento dos cristãos com a cultura na qual estão inseridos sempre representou um grande desafio para eles. Opções como amoldar-se, rejeitar a cultura, idolatrá-la ou tentar redimi-la têm encontrado adeptos em todo lugar e época. Em nosso país, com uma cultura tão rica, variada e envolvente, o desafio parece ainda maior nos dias atuais. Como aqueles que crêem em Jesus Cristo e adotam os valores bíblicos quanto à família, trabalho, lazer, conhecimento e as pessoas em geral podem se relacionar com esta cultura?

Existem muitas definições disponíveis e parecidas de cultura. No geral, define-se como o conjunto de valores,

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Jhon Stott ressuscitará primeiro; e juntos seremos arrebatados

Recebi uma notícia triste, porque é triste nesse nosso mundo caído a notícia da morte. A morte é notícia trsite porque não devia existir. Por que o pecado entrou no mundo (onde não era pra entrar), a morte entrou no mundo (onde não era pra entrar). Teremos que conviver com ela mais um pouquinho, só mais um pouquinho, porque quando da parúsia (a volta de Jesus) a morte estará morta.

Ontem faleceu Jhon Stott, um dos mais célebres teólogos da atualidade. Tive a honra de estudar alguns de seus textos e me inspirar em sua teologia. Recentemente Stott lançou seu último livro, e avisou a todo mundo que era seu último livro: O discípulo radical (publicado no Brasil pela Editora Ultimato). Ele levou a sério o ensinamento de Jesus, ele testemunhou a realidade presente do Reino de Deus, ele esperou confiantemente a plenitude do Reino, a realidade futura. Stott era um discípulo radical.

A dor da partida do agora é confortada pela esperança, anunciada por Jesus, ensinada por Paulo e acreditada por milhões de cristãos de toda época e lugar: a ressurreição dos mortos e o arrebatamento da Igreja. Os mais próximos sentirão saudades de Jhon Stott e nós, que com ele aprendemos, vamos rogar ao Senhor da seara que mande mais ceifeiros tão comprometidos e discípulos tão radicais para a Sua obra (Mt 9:35-38).

Quando Jesus vier, todo olho verá (Ap 1:7). Jhon Stott e os mortos que dormem em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os que estivermos vivos, seremos arrebatados ao encontro do Senhor nos ares (I Ts 4:17-18). Habitaremos enfim o novo céu e a nova terra, onde não haverá nem choro, nem clamor, nem dor (Ap 21:4). O Reino que nos está preparado desde a fundação do mundo! (Mt 25:34)

Soli Deo gloria!

quarta-feira, 2 de março de 2011

{Estudo Bíblico} Quando a cultura vira evangelho

O relacionamento dos cristãos com a cultura na qual estão inseridos sempre representou um grande desafio para eles. Opções como amoldar-se, rejeitar a cultura, idolatrá-la ou tentar redimi-la têm encontrado adeptos em todo lugar e época. Em nosso país, com uma cultura tão rica, variada e envolvente, o desafio parece ainda maior nos dias atuais. Como aqueles que crêem em Jesus Cristo e adotam os valores bíblicos quanto à família, trabalho, lazer, conhecimento e as pessoas em geral podem se relacionar com esta cultura?

Existem muitas definições disponíveis e parecidas de cultura. No geral, define-se como o conjunto de valores,

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

{Estudo Bíblico} A ética do Reino e o mundo da política


A ética cristã não se baseia em disputas, mas na fraternidade produzida pela vivência dos valores do reino de Deus, na comunhão com Deus e com o próximo (Mc 9.33). A ética do reino baseia-se em servir, e nisso precisamos ser exemplo (Jo 13.15). Com a mesma intensidade que evitamos lutar contra a carne ou o sangue (Ef 6.12), combatemos todas as formas de corrupção, exploração e opressão, na esperança de que o Filho tem poder para transformar a nossa vida e, consequentemente, a vida da nossa comunidade.

Sonhamos que a terra que a Deus pertence também pertença ao povo que Deus criou. Temos esperança de que a própria criação há de ser libertada do cativeiro da corrupção para a glória de Deus, o criador e Pai (Rm 8.21). Acreditamos que a transformação social em nossa cidade, como em todos os lugares do mundo, não se dará por decreto de nenhum governo.

A verdadeira transformação acompanha a redenção, de forma que só se dará através da ação do Espírito Santo (que convence o homem do pecado) e do Senhor Jesus Cristo, que tem o poder de nos redimir, formar novas criaturas, que antes nem eram povo, mas agora são povo e povo de Deus (1Pe 2.10). Um povo que é sal para uma terra sem sabor, sem esperança, sem paz, sem Deus (Mt 5.13). Um povo que é luz, para uma humanidade lançada em profundo abismo, padecendo nas trevas, que diz ser rica e de nada ter falta, não reconhecendo que é miserável e cega (Ap 3.17).

A ética do cristão envolvido nas questões políticas consiste em afirmar a providência de Deus, a ação constante daquele que veio para que todos tenham a vida com abundância, a vida completa, a vida integral (Jo 10.10). E vida abundante é isso: todas as necessidades humanas supridas – e está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas da palavra, da orientação de Deus. É preciso repetir as palavras de Jesus: É chegado o Reino dos Céus, que não é deste mundo (Mt 4.17). E a confissão de Paulo: pois o Reino de Deus não é questão de comida ou de bebida (nem de dinheiro ou posição social), mas de Justiça e Paz e Alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). Entendemos que o Reino de Deus não é um regime político, nem é um império. São sim, as orientações de Deus para a nossa vida. Orientações que não nos deixam conformados com este século, mas transformados pela renovação do nosso entendimento, com vontade de experimentar qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1-2).

O cristão político, para ser ético, precisa estar comprometido integralmente com a vivência dos princípios e valores do Reino de Deus. Se fizer o contrário, corre o risco de cair em tentação, buscando os reinos deste mundo, prostrando-se diante de deuses estranhos (Mateus 4:9). A orientação de Jesus Cristo é essa: Busque o Reino dos Céus e Sua Justiça (Mateus 6:33). O Senhor acrescenta: a minha Graça lhe basta! (2Co 12.9).

O Senhor já nos deu outras orientações importantes, já nos mostrou o que é bom, já disse o que exige de nós. O que Ele quer é que façamos o que é direito; que andemos em humilde obediência a Deus (Mq 6.8). Humildade para reconhecer que não somos auto-suficientes e dependemos de Deus em tudo, que nada podemos se o Senhor não estiver conosco. Humildade para ouvir as orientações do Espírito da Verdade, aquele que nunca erra. Humildade para olhar o próximo não meramente como um adversário político, mas também como semelhante carente de libertação, redenção, transformação. A ação vivificadora do Espírito Santo.

O cristão político, antes de tudo, necessita ser profeta. Lembrando que ser profeta exige sacrifício, doação e compromisso com a verdade. Precisamos ser profetas porque é preciso ter visão de Deus. Numa sociedade corrompida pelo pecado, por vaidade de vaidades (Ec 1.2), pela desonestidade de tantos – o que prejudica os serviços públicos essenciais (Educação, Saúde, Segurança e etc.) – e por sentimentos que suscitam uma cultura individualista e egoísta de indiferença perante o próximo, gerando a desintegração das famílias e das comunidades, é preciso ter visão de Deus.

Ezequiel era um jovem que aos 25 anos foi surpreendido vendo a invasão de seu país. Ele foi levado cativo junto com dez mil homens do seu povo. Cinco anos difíceis ele viveu. Cinco anos vendo a miséria do seu povo, a desesperança de seu povo. Um silêncio dos céus. Apesar de toda a crise, Deus animou Ezequiel com sua visitação. O profeta nos conta: Aconteceu no trigésimo ano... que estando eu no meio dos exilados... se abriram os céus e eu tive visões de Deus (Ez 1.1). Somos carentes de uma constante visitação de Deus, nos dando visões e discernimento.

Ricardo Matense é membro da Igreja Assembléia de Deus em Mata de São João (Bahia) e Coordenador do Grupo Cidade de Deus, organização que atua na promoção da Justiça e defesa de direitos.

NOTA: O penúltimo parágrafo foi adaptado da reflexão Eu tive visões de Deus, do pastor Carlinhos Veiga.